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domingo, 22 de janeiro de 2012

As cidades e os mortos_Argia


Aquarela em papel 21x29.7 cm
LTR_CI_12_12

O que distingue Argia das outras cidades é que no lugar do ar existe terra. As ruas são completamente aterradas, os quartos são cheios de argila até o teto, sobre as escadas pousam outras escadas em negativo, sobre os telhados das casas premem camadas de terreno rochoso como céus enevoados. Não sabemos se os habitantes podem andar pela cidade alargando as galerias das minhocas e as fendas em que se insinuam raízes: a umidade abate os corpos e tira toda a sua força; convém permanecerem parados e deitados, de tão escuro. De Argia, daqui de cima, não se vê nada; há quem diga: "Está lá embaixo" e é preciso acreditar; os lugares são desertos. À noite, encostando o ouvido no solo, às vezes se ouve uma porta que bate...

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

As cidades delgadas_Andria



Andria, Cidades Invisíveis
Pintura Acrílica em Tela 60x50
LTR_CI_03_07

Ândria foi construída com tal arte que cada uma de suas ruas segue a órbita de um planeta e os edifícios e os lugares públicos repetem a ordem das constelações e a localização dos astros mais luminosos: Antares, Alpheratz, Capela, as Cefeidas. O calendário da cidade é regulado de modo que trabalhos e ofícios e cerimônias se disponham num mapa que corresponde ao firmamento daquela data: assim, os dias na terra e as noites no céu se espelham.

As cidades delgadas_Isaura


Isaura, Cidades Invisíveis
Pintura Acrílica em Tela 21x29
LTR_CI_02_07


Presume-se que Isaura, cidade dos mil poços, esteja situada em cima de um profundo lago subterrâneo. A cidade se estendeu exclusivamente até os lugares em que os habitantes conseguiram extrair água escavando na terra longos buracos verticais: o seu perímetro verdejante reproduz o das margens escuras do lago submerso, uma paisagem invisível condiciona a paisagem visível, tudo o que se move à luz do sol é impelido pelas ondas enclausuradas que quebram sob o céu calcário das rochas. Em consequência disso, Isaura apresenta duas religiões diferentes. Os deuses da cidade, segundo alguns, vivem nas profundidades, no lago negro que nutre as veias subterrâneas. Segundo outros, os deuses vivem nos baldes que, erguidos pelas cordas, surgem nos parapeitos dos poços, nas roldanas que giram, nos alcatruzes das noras, nas alavancas das bombas, nas pás dos moinhos de vento que puxam a água das escavações, nas torres de andaimes que sustentam a perfuração das sondas, nos reservatórios suspensos por andas no alto dos edifícios, nos estreitos arcos dos aquedutos, em todas as colunas de água, tubos verticais, tranquetas, registros, até alcançar os cataventos acima dos andaimes de Isaura, cidade que se move para o alto.

As cidades e o céu_Andria



Andria, Cidades Invisíveis
Pintura Acrílica em Tela 21x29
LTR_CI_01_07

Ândria foi construída com tal arte que cada uma de suas ruas segue a órbita de um planeta e os edifícios e os lugares públicos repetem a ordem das constelações e a localização dos astros mais luminosos: Antares, Alpheratz, Capela, as Cefeidas. O calendário da cidade é regulado de modo que trabalhos e ofícios e cerimônias se disponham num mapa que corresponde ao firmamento daquela data: assim, os dias na terra e as noites no céu se espelham.

sábado, 19 de novembro de 2011

As cidades e os mortos_Argia

Argia, cidades invisíveis
Aquarela em papel 21x29.7 cm
LTR_CI_11_11

O que distingue Argia das outras cidades é que no lugar do ar existe terra. As ruas são completamente aterradas, os quartos são cheios de argila até o teto, sobre as escadas pousam outras escadas em negativo, sobre os telhados das casas premem camadas de terreno rochoso como céus enevoados. Não sabemos se os habitantes podem andar pela cidade alargando as galerias das minhocas e as fendas em que se insinuam raízes: a umidade abate os corpos e tira toda a sua força; convém permanecerem parados e deitados, de tão escuro. De Argia, daqui de cima, não se vê nada; há quem diga: "Está lá embaixo" e é preciso acreditar; os lugares são desertos. À noite, encostando o ouvido no solo, às vezes se ouve uma porta que bate...

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

As cidades e o desejo_Zobaida

Zobaida, cidades invisíveis
Aquarela em papel 21x29.7 cm
LTR_CI_10_11


"Dali, ao cabo de seis dias e sete noites, o homem chega a Zobaida, cidade branca, bem exposta à lua, com ruas que se viram sobre si próprias como num cotovelo. Conta-se isto da sua fundação: homens de nações diferentes tiveram um sonho igual, viram uma mulher correr de nooite por uma cidade desconhecida, por trás, de cabelos compridos, e estava nua. Sonharam que a seguiam. Ora um ora outro, todos a perderam. Depois do sonho andaram à procura dessa cidade; não a descobriram mas encontraram-se uns aos outros; decidiram contruir uma cidade como a do sonho
....
Esta passou a ser a cidade de Zobaida em que se estabeleceram à espera de que uma noite se repetisse aquela cena."


quarta-feira, 6 de julho de 2011

As cidades e os mortos_Argia

Argia, cidades invisíveis
Aquarela em papel 21x29.7 cm
LTR_CI_09_11

O que distingue Argia das outras cidades é que no lugar do ar existe terra. As ruas são completamente aterradas, os quartos são cheios de argila até o teto, sobre as escadas pousam outras escadas em negativo, sobre os telhados das casas premem camadas de terreno rochoso como céus enevoados. Não sabemos se os habitantes podem andar pela cidade alargando as galerias das minhocas e as fendas em que se insinuam raízes: a umidade abate os corpos e tira toda a sua força; convém permanecerem parados e deitados, de tão escuro. De Argia, daqui de cima, não se vê nada; há quem diga: "Está lá embaixo" e é preciso acreditar; os lugares são desertos. À noite, encostando o ouvido no solo, às vezes se ouve uma porta que bate...

sexta-feira, 11 de março de 2011

As cidades e a memória_Diomira


Valdrada, cidades invisíveis
Pintura Acrílica em Tela 100x100cm
LTR_CI_06_09


Partindo dali e caminhando por três dias em direção ao levante, encontra-se Diomira, cidade com sessenta cúpulas de prata, estátuas de bronze de todos os deuses, ruas lajeadas de estanho, um teatro de cristal, um galo de ouro que canta todas as manhãs no alto de uma torre. Todas essas belezas o viajante já conhece por tê-las visto em outras cidades. Mas a peculiaridade desta é que quem chega numa noite de setembro, quando os dias se tornam mais curtos e as lâmpadas multicoloridas se acendem juntas nas portas das tabernas, e de um terraço ouve-se a voz de uma mulher que grita: uh!, é levado a invejar aqueles que imaginam ter vivido uma noite igual a esta e que na ocasião se sentiram felizes.

quinta-feira, 10 de março de 2011

As cidades e os olhos_Valdrada


Valdrada, cidades invisíveis
Pintura Acrílica em Tela 60x50cm
LTR_CI_04_09

Os habitantes de Valdrada sabem que todos os seus atos são simultaneamente aquele ato e a sua imagem especular, que possui a especial dignidade das imagens, e essa consciência impede-os de abandonar-se ao acaso e ao esquecimento mesmo que por um único instante. Quando os amantes com os corpos nus rolam pele contra pele à procura da posição mais prazerosa ou quando os assassinos enfiam a faca nas veias escuras do pescoço e quanto mais a lâmina desliza entre os tendões mais o sangue escorre, o que importa não é tanto o acasalamento ou o degolamento mas o acasalamento e o degolamento de suas imagens límpidas e frias no espelho "

sexta-feira, 7 de maio de 2010

As cidades e os olhos_Sofrônia


Sofrônia, cidades invisíveis
Pintura Acrílica em Tela 60x50cm
LTR_CI_08_09


A cidade de Sofrônia  não podia ser mais simples nem mais fantástica (nem alguém que a imagine pode ser menos sutil): A cidade de Sofrônia é composta de duas meias cidades, uma é um parque de diversões, a outra é composta de bancos, escolas, oficinas – é feita de mármore. Uma das meiascidades é fixa, a outra é provisória. Você sabe, todos os anos pedreiros e habitantes musculosos trabalham para desmontar o mármore e levar meia cidade. O carrossel e a montanha-russa que fazem parte da meia cidade fixa ficam contando “quantos meses, quantos dias se deverão esperar até que a caravana retorne e a vida inteira recomece”.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

As cidades e os olhos_Bauci



Bauci, Cidades Invisíveis

Pintura Acrílica em Tela 60x50cm
LTR_CI_07_09

Depois de marchar por sete dias através das matas, quem vai a Bauci não percebe que já chegou. As finas andas que se elevam do solo a grande distância uma da outra e que se perdem acima das nuvens sustentam a cidade. Sobe-se por escadas. Os habitantes raramente são vistos em terra: têm todo o necessário lá em cima e preferem não descer. Nenhuma parte da cidade toca o solo exceto as longas pernas de flamingo nas quais ela se apóia, e, nos dias luminosos, uma sombra diáfana e angulosa que se reflete na folhagem.
Há três hipóteses a respeito dos habitantes de Bauci: que odeiam a terra; que a respeitam a ponto de evitar qualquer contato; que a amam da forma que era antes de existirem e com binóculos e telescópios apontados para baixo não se cansam de examiná-la, folha por folha, pedra por pedra, formiga por formiga, contemplando fascinados a própria ausência.

terça-feira, 21 de abril de 2009

As cidades e o céu_Andria

Andria, Cidades Invisíveis
Pintura Acrílica em Tela 80x50
LTR_CI_05_09


Ândria foi construída com tal arte que cada uma de suas ruas segue a órbita de um planeta e os edifícios e os lugares públicos repetem a ordem das constelações e a localização dos astros mais luminosos: Antares, Alpheratz, Capela, as Cefeidas. O calendário da cidade é regulado de modo que trabalhos e ofícios e cerimônias se disponham num mapa que corresponde ao firmamento daquela data: assim, os dias na terra e as noites no céu se espelham.
Mediante minuciosa regulamentação, a vida da cidade flui com a calma do movimento dos corpos celestes e adquire a necessidade dos fenômenos não sujeitos ao arbítrio humano. Aos cidadãos de Ândria, louvando-lhes a laboriosa fabricação e bem-estar do espírito, fui levado a declarar:
— Compreendo bem como vocês, sentindo-se parte de um céu imutável, engrenagens de um meticuloso mecanismo, evitem fazer em sua cidade e em seus costumes a mais ligeira mudança. Ândria é a única cidade que conheço à qual convém permanecer imóvel no tempo.
Olharam-se pasmos.
— Mas por quê? E quem disse? — E conduziram-me até uma rua suspensa recentemente aberta sobre um bosque de bambus, um teatro de sombras em construção no lugar do canil municipal, agora transferido para os pavilhões do antigo lazareto, abolido por estarem curados os últimos empestados, e, recém-inaugurados, um porto fluvial, uma estátua de Talete, um tobogã.
— E essas inovações não perturbam o ritmo astral da cidade? —
perguntei.
— A correspondência entre a nossa cidade e o céu é tão perfeita — responderam —, que cada mudança em Ândria comporta alguma novidade nas estrelas. — Os astrônomos perscrutam com os telescópios depois de cada mudança que acontece em Ândria e assinalam a explosão de uma nova, ou a passagem do laranja para o amarelo de um ponto remoto do firmamento, a expansão de uma nebulosa, a curvatura de uma espiral da Via Láctea. Cada mudança implica uma cadeia de outras mudanças, tanto em Ândria como nas estrelas: a cidade e o céu nunca permanecem iguais.
Do caráter dos habitantes de Ândria, duas virtudes merecem ser recordadas: a confiança em si mesmos e a prudência. Convictos de que cada inovação na cidade influi no desenho do céu, antes de qualquer decisão calculam os riscos e as vantagens para eles e para o resto da cidade e dos mundos.

terça-feira, 3 de março de 2009

Uma mera releitura!



Cidades [in]Visíveis! busca uma nova interpretação, ou estudos gráficos de uma obra repleta de multiplicidade que é “As Cidades Invisíveis” do Ítalo Calvino, que também é um completo conteúdo de suas propostas para o novo milênio.

Por Clarisse Cunha


"As cidades invisíveis", de Calvino, é uma espécie de "bíblia" para o entendimento das cidades e, consequentemente, de quem as habita. Se desejamos entender algum discurso que explique as cidades, e não somente o discurso mas diferentes formas de interpretação, ler este romance é quase que fundamental.

Fonte: http://www.mood.com.br/literatura/4.asp

É um livro delicioso de ser lido, pois são vários textos curtos nos quais Marco Polo, o famoso viajante veneziano, descreve para o imperador Kublai Khan, diversas cidades que havia visitado. Todas têm nome de mulher e, em cada uma, a linguagem mostra que podemos percorrer as ruas como se estas fossem páginas escritas. Dependendo somente do que se procura em cada cidade. Por exemplo, quais são os lugares que desejamos ir, quem gostaríamos de encontrar, se é dia ou noite... são infinitas as possibilidades de leitura. Interessante também é perceber como uma cidade ajuda a ler outra, pois há conexões entre os meios urbanos, por mais distantes que estejam.

As cidades também são duplas, e isso aparece em Calvino como "cristal e chama". O traçado da cidade moderna tenderia para o cristal uma vez que é o lado racional e ideal. Já a presença do homem, com suas experiência próprias e inter-relacionadas, a transforma em chama. Na cidade e no homem, o cristal não vive sem a chama. É a duplicidade da descrição, da vida e da percepção humana.

O desejo do imperador Kublai Khan é que, após as descrições, fosse possível montar um império perfeito. Fato que não pode acontecer. As cidades nunca serão perfeitas porque nós, homens, não o somos e nunca seremos. Por mais que se tente.